quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A moça



De tempos em tempos te miro, seus olhos me inquietam. Sempre me inquietaram. Desde a primeira vez que a vi: atrás de uma cortiça, na 2º semana da família vende- tudo, na casa da Mari. Ela ficou surpresa quando disse que iria levá-la.
Voltamos, você, o sábado cinzento e eu, ouvindo Across the Universe. Seu olhar longínquo parecia querer me dizer algo. Demorei a perceber uma tristeza contida neles. Porque está triste moça?
Um amor incurável?
Um passarinho morto em seu caminho?
O sino da solidão que bate-bate...
Volto pra cama
Não Sonho – só respiro
Acordo, trabalho – transpiro
Volto – suspiro, suspiro por um barulho, um afago, uma luz acessa...
Coloco a chave na porta e escuto o alarde cinematográfico do virar de chaves no miolo, seguido do trinco que se esconde. Há um só tempo, sou prisioneira e carcereira de mim mesma. Abro a porta, tudo escuro no silêncio. Solto a maçaneta e levanto minha mão em direção ao interruptor - o gesto também é um aceno de adeus as minhas vidas possíveis. Minha mão encontra o destino, tudo fica claro: Vejo- te e me encontro em seus olhos.
Ps: Infelizmente não conseguimos uma imagem melhor, em parte, deve-se a condição da moça: que vive atrás de um vidro.

7 comentários:

Fadul disse...

Triste? Um olhar perdido sim, mas porque triste? Parece mais ser um olhar de uma lembrança boa, de um tempo que ela sabe que não voltará, um período do qual ela sente saudades sim, mas é daquelas saudades "saudáveis", que fazem bem ao coração...Será que vc não se encontra nesse olhar por conta de uma dessas saudades boas tb? A moça se reconhece em vc como um reflexo de algo que ela foi, quando vc sai e apaga as luzes, ela se mostra triste, mas vc não a vê e quando vc retorna, ela brilha intensamente e se reconforta novamente em seus olhos. Daí esse brilho que vc não consegue apagar do rosto da moça, ela só reflete o que vê quando vc se posiociona em frente a ela: um brilho intenso e feliz.

João Pedro disse...

As vezes interpretamos mal a longitude de um olhar.
Nem sempre o que enxergamos em olhares perdidos são tristezas. Muitas vezes, se viajarmos fundo, mas digo mais fundo do que a visão inicial, chegaremos a um ´"Pé de Manacá" guardado por um guardião com seu cachimbo.Ou ainda, podemos enxergar um colorido diferente.Uma mancha, quem sabe, um vestígio de uma suculenta amora que outrora experimentamos com descaso.
Mas a verdade é que enxergamos nesses olhares um espelho que reflete as nossas próprias almas que nos aprisionam em dúvidas nos fazendo reféns de nós mesmos.

fabiana disse...

Eu preciso comentar logo antes que tenhamos que fazer fila de espera.
Eu sou de exatas então me falta um pouco de poesia mas o que penso sempre que visito esse blog é - Meu que coisa mais genialmente construída, vivida, suave mas firme. É muito da personalidade da tata que tem uma visão tão diferente, tão mágica, tão viva .
Uma delícia de ler e pensar, pensar . Muito mais doce que doce de batata doce.(Quem a conhece sabe exatamente do que estou falando.
Ela e suas histórias mirabolantes... mas por incrivel que pareça é tudo verdade!kkkkkk
E esse olhar da moça é muito do olhar de quem o descreveu em momentos bem secretos.
Nóssa! ta parecendo depoimento de orkut. Não era esse o objetivo mas agora ja foi na próxima serei mais objetiva.

Vanessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa disse...

Ahhh essas duas moças! Fazem a gente pensar sempre em milhares de coisas!!!

Rafaela disse...

"Há um só tempo, sou prisioneira e carcereira de mim mesma."
Há quem saiba do que você fala.
Há quem saiba e quem jure que não há forma diferente de viver.
É assim, é a vida. =)

Acho que me viciei em "vidas possíveis".
Vê lá onde isso foi parar...
uahuahuahauha

Beijo!

Anônimo disse...

Li e re-li algumas vezes, mas não consegui formatar um bom comentario... Vou apenas destacar esse trecho, pois me despertou uma vontade absurda de torna-lo visual!!!

"Abro a porta, tudo escuro no silêncio. Solto a maçaneta e levanto minha mão em direção ao interruptor - o gesto também é um aceno de adeus as minhas vidas possíveis."

Que vontade de cinematrofar essa cena, meninaaaaa!!!! rsrsrs

Beijos

Maga