Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Pinga, papo, petiscos & Paradiso

Tudo começa no bar....
O Claudio – hermano pra mim, Mil para Blog - , que, por vezes, da honra da sua graça, aqui, no pitadascotidianas, engatou uma conversa sobre o Cine Paradiso. Ele estava um tantinho revoltado com a história do homem que se propôs a ficar cem dias e cem noites, fizesse chuva ou sol, debaixo da janela da sua amada, para provar o seu amor. “ Cem dias!!” exclamou o hermano - Por que não 15 dias? Já seria o suficiente!! No filme, o Alfredo contou a estória para Totó que não titubeou, plantou guarda na frente da janela da Elena, a sua amada.
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Eu fui pra casa, era uma sexta – feira tão fria que nem o Del Rey foi capaz de me animar.
Na hora de dormir fiquei pensando no Cine Paradiso, no meu trecho preferido do filme, que farei suspense.
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Antes, eu quero te perguntar uma coisa.
Você já sentiu que conhece alguém, mesmo não conhecendo? De repente você está em um lugar qualquer - uma roda de samba, uma padaria, na esquina de casa - e a pessoa aparece, você nunca a viu, mas você a conhece. Não do passado. Não que lembre alguém. Parece confuso, mas não é. Você a conhece, mas não é um conhecer de saber as preferências dela. É um conhecer sem palavras. Sem saber dizer o quê, ou como.
Assim é a minha pessoa, você deve ter a sua. O meu, é amigo do amigo do amigo, nunca cheguei a trocar mais do que cinco frases completas com ele. Não que eu não quisesse, tenho um mundo de coisas pra falar, mas fico Noel: perto dele me calo, tudo penso e nada fala.
Ele é definitivamente o Cara Estranho que chegou e não quer perder aquilo que já tem, exibe à frente um coração que não divide com ninguém. É como se ele vivesse à alguns centímetros do chão, ele não flutua em um mundo encantado, se nega a pisar. Me olha com a mesma curiosidade que vive, pelos cantos, sorrateiro, uma sombra de seu próprio fantasma. Eu finjo que não vejo, até porque não consigo ir mais além nesse muro...Mas como eu quero que o moço deixe de ser a sombra atrás cortina , sim, eu sou quem espera um gesto debaixo da chuva.
Só por um dia, segurar sua mão sem pressa, dançar com ele de pés nos chão e olhos fechados e, mesmo que só por uma noite, fazê-lo entender que estar Aqui - e Não Lá - em chão firme, por mais duro que seja, ainda é a melhor resposta.
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A minha parte preferida do Cine Paradíso é quando o Alfredo agarra o pescoço do Totó e, antes de sua partida, sussurra em seu ouvido: “ Vá e não olhe para trás .Vá e não volte jamais”. Alfredo temia que Totó, assim como ele, nunca partisse...
No final das contas, o conselho do Alfredo pode servir tanto pra ele – o Cara Estranho -, quanto pra mim e meu conhecimento mudo. Talvez seja a hora de partir e não voltar mais para coisas tão simples e tão assustadoras quanto um beijo e uma lágrima.
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Eu não sei se foi Pinga, papo, petiscos ou Paradiso demais, mas Maguinha, já que foi no seu dia, Feliz Niver. Muitos PPPParabéns!!!

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Tempo

A inocência contida em tolos gestos
A rosa estendida
Rajadas de luzes
O perfume das flores
Jardim sem fim: as falas de amor

A moeda incessante, gira,gira, gira...
Olhares falantes dentro de mim
Só, escuto um grito
Uma alvorada de formigas tomam meus pés...avançam pelo meu corpo
Silêncio

A rosa estendida
O braço serrado
Vaso sem flor
Passos sem sincronia

Tempo, tempo, queima
E me leve pra bem longe

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Postizinho besta


Porque felicidade é coisa à toa:

É esse vento frio que vem da janela
Acordar com João Gilberto
Trocar o sapato pelo moletom
Estar na esquina da sua vida,
sem saber o que vem pela frente
Olhar pro céu, e ver a lua cheia
É saber que, em algum canto da cidade, tem amigo que torce para que o mundo gire a seu favor
O cheiro do seu prato preferido
Pedir uma revista e ganhar duas
É sentir a primeira nota que vem do piano
Ter alguém que te entenda, sem que seja preciso dizer
É beijar o desconhecido de olhos fechados
"A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar"

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Abapuro

Amélia tem 81 anos, mora com a filha há dois, divorciada há quarenta e sete anos. Sabe que pouco resta do que viver, sem lágrimas ou penar – sabe que muito já viveu, detesta essa ode de vida eterna e os empenhos científicos para a "cura" dos radicais livres. Amélia é do tempo em que se comia manteiga Aviação no café e que os casamentos duravam até que a morte os separe. Mas o dela foi diferente. Ela surpreendeu a família e os amigos ao pedir a separação. Pedro era do tempo que se andava de carrinho de rolemã nas ruas da Vila Mariana e que o presente ideal, do garoto de quinze anos, era o ingresso para o melhor puteiro da cidade.
Pedro e Amélia casaram-se por amor, com toda a pompa e circunstância. Isso significou: vestido branco e noiva casta, mas não obtusa. Noivo de barba feita e flor na lapela.
Para família, o que ficou foram as fotos, uma delas, serve de decoração na casa de um dos netos, como se fosse “bibelot” na entrada. Pedro e Amélia mantêm relações amistosas, bem diferentes do casamento. Nunca encenaram cenas de ciúmes e brigas sem sentido. As brigas eram cerradas por olhares duros. Amélia, sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, mas nunca fez estardalhaço disso. Acompanhava de longe as escapadas do marido e doía aos seus ouvidos os aplausos da sociedade. Era como se todo seu amor estivesse em uma ampulheta, e fosse se esvaindo para o outro lado, o seu lado “mulher”. Até que um dia, ela pediu que Pedro fosse embora de casa. Pedro não questionou. Embora sem chão, ele sabia que seu amor por Amélia não bastava. Não era ingênuo ao ponto de propor mudança. Sabia o que fazia dele, Pedro.
Amélia sempre foi uma mulher discreta, viveu bem ao lado dos filhos. A casa era ponto de encontro dos amigos, por sua abertura. Em silêncio, orgulhava-se de ter apostado em si, no que acreditava: em relações justas, em não compactuar com o machismo, que para além dos homens, sabia que grudava, feito música ruim, no pensamento. Não casou –se novamente e não se sabe que tenha tido outras relações. Pedro zelou pelo filhos, a seu modo, com cuidados com a educação e obrigações com o futuro. Casos não faltaram, seu olhar forte e seu toque - há um só tempo: rude e protetor - sempre agradou as mulheres.
Amélia sente que o tempo mudou, mesmo que o vento ainda seja brisa. Diverte-se com as peripécias amorosas de sua neta. Percebe que daquela mulher, que um dia foi árvore, pouco ficou, restam apenas as folhas. De quem, pouco-a-pouco, desprendendo-se. Amélia caminha com dificuldade, e lhe resta apenas 20% da visão. Pedro, apesar das noite mal-dormidas, está firme, embora sua visão também esteja prejudicada. Ele também não mora mais sozinho.
Era fim do verão quando Amélia decidiu conversar com seu filho, o mais próximo, dos quatro. A voz serena mascarava o receio, pediu a casa dele emprestada para que se encontrasse com seu pai. O silêncio do filho constrangeu Amélia, e ela questionou: você acha a idéia asquerosa? Ela sempre foi do ouvir e fazer em silêncio. Infelizmente, Amélia não conseguia ver os olhos mareados de seu filho. Benjamim olhava para aquela mulher, alta e forte, mesmo sentada. Ela nunca questionou o porquê dele não querer casar e ter filhos, ou financiar uma casa. Em um tempo em que ser gay ,era anormal .E hippie, marginal.
Benjamim, sempre admirou Amélia, mas surpreendeu-se com a mulher à frente, sua mãe, expressando a vontade do seu desejo. Amélia terminou : sinto que precisamos fechar nossa história.
E assim foi, numa casinha escondida em Pinheiros, Amélia e Pedro amaram-se por todo um final de semana. Benjamim chegava fazendo barulho, para repor o que faltava na cozinha. Via os vestígios de seus pais pela casa, ou melhor, pelo quarto e pelo banheiro como dois adolescente descobrindo-se, banheiro-quarto-quarto-banheiro. Mas, o único que sabe, além de Amélia e Pedro, o que realmente aconteceu na casinha de vila, é o Abapuro. Que cresceu tanto, que teve que ser abatido, mas está lá, e mesmo estendido no chão, presenciou o tatear desejoso de Amélia e Pedro, que transaram-que treparam-que fizeram amor.

Ps: Como nada é por acaso, ou tudo é puro acaso. Abapuro significa: homem que come.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Quando não há palavras

Dia desses, esperando uma amiga no metrô Consolação, fiquei observando um bebezinho. Ele caminhava devagar e seus passos eram graciosamente descoordenados. Sua mãe, suponho, o segurava pela mão. A outra mão ele mantinha levantada, indicando o seu querer - que a outra criança, que estava à frente, a segurasse. Ele não disse nada, talvez não conseguisse, talvez não soubesse como dizer, mas permaneceu com a mão em riste . Muitos passos depois, a outra criança - um menino de uns 4 anos - entendeu seu desejo . Da maneira errada, mas imediatamente o menino segurou a sua mão. A descrição parece boba, mas me fez pensar em tantas coisas que não conseguimos dizer. Somos pequenos diante do que vivemos e ,por vezes, não há palavras para o que sentimos. Para momentos como esses, temos lágrimas, mãos. Corpo. Por isso, nesse momento, fecho meus olhos e estendo minha mão para meu destino. Desejo intensamente que ele me entenda.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Gostoso ser conduzido
Não definir o caminho
Ou pelo menos, não todo ele

Delícia cavalgar sem rédeas
Ao bel prazer do surreal
Fluir conforme a maré

Fácil é andar sem decisões
Na contramão das tendências lógicas
No refluxo vespertino
E tentar herdar o espólio irreal
Torcer pela fantasia e abstrair a sintaxe.

Nutri-se da fome rotineira
Surgir na alvorada escura
E fazer a fotossíntese lunar

Desejar sumir em um copo americano
Ser absorvido pelas raízes de uma árvore urbana
E por fim, plagiar tudo aquilo que ainda não foi pensado

Mas, por ora, elaboremos mais um orçamento.

Sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Menino à moda antiga

Eu sempre acho que o mundo conspira contra mim, ou à favor, meus amigos já me explicaram que é o oposto. Eu conspiro a partir do mundo. Mas diga você se eu não tenho razão. Em um mesmo dia, um menino de 6 anos fez questão de abrir a porta do elevador para que eu entrasse , e um senhor de 70, após meu espirro ardido , disse: estimo melhoras. Homens à moda antiga. Me fez lembrar um certo menino...
Meu menino à moda antiga. Ele é calado, mas fala com os olhos. Antes de me beijar, segura a minha nuca. Depois do beijo, me aperta contra seu peito e beija a minha testa. Pergunta se pode me acompanhar até em casa. Segura a minha mão e me coloca do lado de dentro da calçada. Ele é íntegro e não cede a pressões, pensa no futuro e vive arquitetando coisas por aí...Eu envio e-mail pra ele, mas ele responde como se fosse uma carta: lê, pensa e recebo o e-mail-resposta depois de uma semana. Ele não tem coragem de dizer que não quer nada comigo, então diz: obrigado por ligar. O menino à moda antiga não é meu, é do mundo. E no fundo, fico contente em saber que, a qualquer hora, uma garota vai ganhar beijos em noites de lua cheia, andará abraçada debaixo da chuva e suspirará. Afinal, ainda existem homens à moda antiga.