quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Para os céticos: Besteirol para entortar mentes. Para os sentimentais: Aquarela.


A tese: Os fatos não existem em si mesmo. “Os olhos pintam a vida”.
A antítese, a afirmação preferida dos advogados (ironicamente): Contra os fatos, não há argumentação. Esse texto se propõe a um breve passeio pela vida e, audaciosamente, pretende provar que os fatos não existem por si mesmos.
Nosso passeio começa pelos nossos olhos. É isso mesmo, não é interessante como nossos olhos não permanecem “o tempo todo abertos”? Você esqueceu? Nós piscamos. O que é uma piscada? O breve intervalo entre abrir e fechar dos olhos. O momento em que os olhos estão abertos seria o real? O comprovado? A razão? O fechar dos olhos seria então o mistério? O obscuro? O que está além e aquém da razão? O sentimento? Se pensarmos assim, vida é um eterno diálogo, expresso pelo o breve instante de um piscar de olhos. Real versus mistério. Sob essa perspectiva, o escuro (mistério) e o claro (real) são planos que se perpassam, e mais, que se fundem de tal maneira que o bom, ruim, belo, feio, nojento, tornam-se relacional, e portanto, não objetivo.
Humm Complico? Esse blog tá metidinho, mas vamos a mais uma teoria cotidiana, sem fundamento, claro, porque fundamentos são para os chatos. Brindemos à fantasia.
O que pretendemos é expressar, através da premissa já citada, que se até mesmo nossos olhos vivem num constante diálogo entre o ver e o não-ver, nada é tão certo ou tão errado. E tem mais: entre uma piscada e outra, vemos e não vemos milhares de partículas de vida, portanto, as combinações podem ser infinitas.... Eu sei, eu sei, Planeta-Terra, Planeta-Terra chamando... Voltemos à terra firme. O que estou tentando dizer é que, nada pode ser analisado em si mesmo, é preciso entender a teia de relações. Essa teia é a combinação do que vemos com o que deixamos de ver.
Passaremos agora ao estudo de três casos, para exemplificação da proposição:
Estudo de caso nº1. - A sujeira
Em mais uma noite em um bar, questionei-me. Cervejas derramadas no chão, e que permanecem ali, sendo pisadas e repisadas durante horas, é uma cena nojenta, suja? Mas, e se essa cerveja, esse líquido derramado no chão, proporcionar o deslizamento necessário para que as pessoas desse bar dancem melhor? É isso mesmo, antes o rude chão dificultava os movimento dos dançantes, mas o chão molhado pela cerveja fez com que os pés dos dançarinos deslizem com facilidade, produzindo leveza e agilidade de movimentos. Isso é nojento ou bonito?

Estudo de Caso nº 2. - Religioso em cena.
Deparo-me com três franciscanos no metrô Sé da cidade de São Paulo. Por um instante as piscadas cessam e a cena se petrifica, as figuras se destacam das demais pessoas que estão ao seu redor. Seus contornos são nítidos, suas cores expressivas. Em um primeiro olhar vê-se: três jovens franciscanos muito parecidos, a semelhança é causada pelo corte de cabelo, suas roupas e por seus pés descalços e feridos. A dissonância entre os religiosos e os demais passageiros é visível. Três representantes de uma ordem religiosa que tem como objetivo a uniformidade, a igualdade entre seus pares, visando o desprendimento de todo e qualquer desejo particular, a negação do eu e da materialidade via adoção de uma vida com níveis extremos de miséria. Talvez algumas pessoas, olhares, enxerguem beleza nos religiosos. Ora, esses abdicaram dos prazeres fugazes, por uma vida significada, por um ideal, por uma crença. Ora, outros entenderão essa posição como uma estupidez; afinal significa renunciar a tudo que pode ser vivido, sentindo, desprezar a liberdade por algo que não sabemos se existe realmente. É estupidez a essa altura do campeonato 2008, andar descalço na Sé?
Estudo de caso aplicado nº 3. - Yasmim, 5 anos, vendedora de chicletes da praia do Futuro.A seu favor: além da brisa do mar, o brilho dos seus olhos.
Ela fica impressionada com meu mp3, tira uma foto com a minha câmera. Teima que eu escrevi o seu nome errado. Antes de partir, pede que eu desenhe uma casinha com uma cama e uma escada pra ela subir... Pra onde vai Yasmin?
Eu fico ali, com meu olhar opaco da vida, tudo cinza naquele dia de sol que derrete minha retina e deixa o mar mais azul: será que Yasmim sabe (sente) que é explorada? O que ela pensa a respeito do seu futuro? Ou será que seu futuro é a realidade! Que cor tem o futuro? Que cor tem a realidade? O futuro é certo, a realidade é errada? Ou sabemos nós, sabichões, qual será o futuro de Yasmim, e que de certo ele não tem nada. E que a realidade é tão ardida quanto o sol que queima a minha retina.
Yasmim parte, se volta pra mim e sorri. Constato que eles continuam lá: o brilho do seus olhos. Pra onde vai Yasmim? Yasmim vai em direção às terras distantes que meus olhos não conseguem avistar... me viro e contemplo o mar.
Eu te pergunto, você acredita que tem paleta de cores? Ou pra você os pincéis são para poucos? Será que o Capital do Marx ou a Caverna do Platão é capaz de apagar o brilho dos olhos de Yasmim? Será que o conforto tentador de uma havaianas fará com que os franciscanos deixem de andar descalços por aí? Será que cada um de nós tem o potencial de pintar sua vida, escolhendo assim ser um impressionista, barroco ou surrealista? Claro que os pincéis, as telas e as tintas não serão as mesmas, mas cada um, diante de sua estrutura, pode dar as formas e cores providas do seu olhar. De modo que cada um fará de sua vida uma obra de arte?
Sim, é a síntese da tese. Por hoje, creio que não existem fatos, mas situações. Para cada situação, uma tela, que dá para uma janela, uma porta ou um beco sem saída.

6 comentários:

Anônimo disse...

Não sabemos ao certo, o quê é, e o quê não é na vida.
Como você mesmo nos dar a entender, nossos olhos somente observão o que querem, eles não conseguem enxergar a essência das coisas. Mesmo diante do espelho, quando olho para meus proprios olhos. me pergunto se realmente é aquilo que vejo. Willian Blake, pensa o mesmoque você escreve, e vai mais além,cita as portas da percepção, as mesmas utilizadas por Jim Morrisson, que acreditava em sua tenue infância ter visto um índio morto, vivo dentro de si mesmo. e muito paradoxal, mas em sua visão de mundo isso existe, os fatos são coisas construidas no subjetivo para o objetivo e mas mada.

Fadul disse...

Nossa, que texto! É impressão minha, ou vc quer dizer que tudo é muito relativo? Em todo caso, me parece que vc concorda com o Heráclito (o maior filósofo de todos os tempos, na minha irrelevante opinião), o que é um ponto positivo...rsrs
Agora uma provocação barata: não é contraditório que os religiosos, como os franciscanos, que pregam a igualdade etc., buscam se diferenciar até nas suas vestes? Não é curioso que a figura maior da igreja católica, o Papa, se apresente sempre com vestes tão distintas e caríssimas?
Acho que meus pincéis não fogem muito do branco e preto, às vezes capazes de produzir alguns tons de cinza...rsrs Realmente acho que as paletas de cores são para poucos, talvez àqueles que não pisquem ou os que conseguem algo ainda mais raro, manter os olhos fechados a maior parte do tempo...

Mill disse...

PUTA QUE PARIU HERMANA

QUE AULA DE FILOSOFIA, QUE ROTEIRO, QUE LINHA DE PENSAMENTO PERFEITA ALEM DE LINDA HERMANA, QUE BELAS OBSERVAÇÕES, QUE LINDOS QUESTIONAMENTOS.... CARALHO HERAMAnA

NUM TENHO NADA PRA ACRECENTAR, ABRIU E FECHOU O TEXTO DE MANEIRA PERFEITA, SE É QUE ISSO EXISTE

PARABENS... LINDO

CARALHO....

VOCÊ ME DA ORGULHO

Vanessa disse...

Brindemos a fantasia!
Brindemos a Clau!!!!

clau disse...

Anônimo,
Mto obrigada,adorei o comentário-indicação =)
Beijos

Nancy F. disse...

Claudiana, "frô"..... foi um dos melhores textos seu que eu li....
Parabéns!

Bota aula de filosofia nisso... rss

Bjs