quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

15.01.09

Acordar já no chão já era hábito para ele. Assim seus sonhos eram mais baixos, mais rasos, sonhos médios talvez. Mas eram sonhos firmes.

O trânsito rotineiro também já não espantava ninguém. Aquela cidade parecia ser formada por milhões e milhões de milionários. Milionários não de dinheiro, mas sim de tempo de vida.

A grande maioria dos cidadãos não se importava em esbanjar horas e mais horas de suas vidas paradas em meio ao fluxo de automóveis e coletivos. Alguns diziam que aproveitam para refletir, sonhar e por que não, meditar talvez. Já outros se diziam gladiadores e encaravam seus automóveis como antigas bigas romanas em pleno coliseu lotado. Aquilo aflorava a testosterona que adormecia durante o dia em mesas, repartições e monitores de LCD.

Sim, existiam também os muquiranas, pois também não era raro ver motos e bicicletas passarem apressadas por entre automóveis, ávidos por mais vida, no afã de não gastar um segundo de seu tempo precioso à toa. Mas é uma análise complicada. Há os que pensavam que esses eram realmente jogadores compulsivos que apostavam todo o seu tempo de vida em apenas uma jogada nos corredores fatais das marginas, vinte e três e radiais daquela megalópole tresloucada.

O horizonte da cidade já mostrava aos que chegavam sua intenção. A camada de névoa que carregava sua atmosfera mesmo nos dias de Sol forte abrasador deixava claro à todos que ali era espaço de produção, de movimentação. Ficar parado era o maior dos pecados e ter pulmão fraco a pior das deficiências.

Esse era o cenário daquele que acordava já no chão. Ali era sua terra, e assim como funcionava a cidade funcionava seu corpo.

2 comentários:

Claudiana disse...

"Ficar parado era o maior dos pecados e ter pulmão fraco a pior das deficiências".Hahaha, Gostei!
Ah, se o coração da cidade fosse como o seu, que maravilha viver. Beijos, hermanito

Linha Vermelha disse...

Ah! E a cidade que nunca pára?
São Paulo...uma insanidade viciante.

Adorei Mill!!

Beijos