quarta-feira, 8 de abril de 2009

O som da minha infância

Eu deveria ter por volta de 7 anos quando mais uma família mudou para a casa vizinha. Era curioso, mas as famílias nunca permaneciam na casa por muito tempo. Toda vez que uma família mudava, novos costumes eram instaurados.
Nenhuma das famílias me impressionou mais que aquela, não lembro nomes, me esforço, mas não consigo. Lembro deles: um casal e duas filhas. Eles tinham costumes curiosos, não havia lixo no banheiro, às vezes o encanador visitava-os, mesmo assim não alteravam o costume. A caçula, da minha idade, gostava de brincar de dentista e a mais velha vivia batendo portas, mais tarde descobri que isso não é tão diferente assim, na verdade, é bem normal, na adolescência. Mas o que realmente marcou foi o pai delas, ele tocava Jazzofone. Porém, nunca tocava na presença da família, e toda vez que ia tocar, fechava toda a casa. Quando eu o via fechando as janelas, sabia: era hora do show. Ele tocava por volta de 1 hora, eu sentava na escada, do lado de fora da minha casa, e ouvia. Até hoje não sei o que ele tocava, mas sentia. Por vezes lembro-me daquele homem - sozinho, fazendo música e abafando sua sonoridade aos olhos do mundo.
A lembrança de uma menina de pernas finas, pequena em relação àquela escada, ouvindo o som abafado que vem da casa vizinha é uma das lembranças mais fortes da minha infância. Esse é o som da minha melancolia.

5 comentários:

Vanessa disse...

"Esse é o som da minha melancolia", ahhh que saudades dos meus 7 anos!
Adorei o texto!

beijos

anandacalves disse...

O som da sua melancolia ou o eco do que está preso em vc?
Mate sua curiosidade de infancia, abra as portas, as janelas, levanta da escada e deixa o homem tocar o jazz ou qq som que te faça libertar do que te prende agora.
Bj
Namastê

douglas martins disse...

Delicia de texto Lindona, Vestigios do passado!! Marcas na areia que o tempo recusa apagar. Adorei.

Douglas

Fabio Chiorino disse...

belo texto. Sempre é difícil descrever nostalgias. Talvez porque a memória e a tristeza do que se perdeu sempre acabam por se misturar

Fadulzitos disse...

Mais um belo texto da Clau...que tédio! rsrs
Engraçado...lendo o texto, me dei conta que não tenho uma lembrança tão marcante assim da minha infância...

Bjs