quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Vá com Deus, meu Ateu!

Em memória de Gebran Salim


Há quase sete anos, caminhava pelo centro, a praça Don José Gaspar estava em obras. Espremido entre a sujeira e o alvoroço um pequeno sebinho, Alfarrábios, seu dono era um senhor elegante – de camisa gasta e o lenço amarelado – havia uma distinção na forma como arrumava com apenas uma das mãos o colarinho da camisa, era preciso afinar os ouvidos para seu vocabulário. Salim, era seu nome. Apesar do caos, conversamos por um bom tempo e nossa amizade foi selada sobre Memórias do Subsolo. Ao longo dos anos, passava pela banca para papear com ele, ou melhor, para ouvi-lo.


Ouvir o Salim era vivenciar um outro modo de vida . A arquitetura de um outro tempo era concretizada pelo seu pensamento, pelo seu vocabulário de phs, acentos extintos e pela naturalidade com que dizia palavras como "diametralmente oposto, Lopping proletário e atávico". E pela exclamação: Divino!


Divino foi o que ele disse, com os olhos espantados, quando lhe dei um edredon de presente. Simplesmente não sabia da existência de tal coisa – não à toa, Salim nunca assistiu televisão, mesmo tendo sido gerente de um cinema, alegava nunca ter tido vontade de ver um filme. Para ele, diversão em forma de arte se resumia a música clássica e óperas – já havia me relatado que o peso do cobertor impedia seu sono e sua ausência lhe causava frio. Curioso e risonho, questionou: Como pode algo tão leve esquentar tanto? Divino!Divino! Pra ele, “tecnologia” era como um brinquedo. Uma descoberta.


Descoberta era ver o “nosso mundo” pelos olhos do Salim, tudo que para nós é rotineiro: edredons, mp3, pen drives, internet, site de busca etc, era uma grande arca do tesouro para o Heremita, como ele mesmo se denominava por vezes. Ele perguntava, nesse “negocinho” cabe quanto, quantas músicas? Eu respondia e ele sorria. Em um sábado à tarde, mostrei a ele nosso oráculo, o Google. Ele gostou, mas o que o arrebatou mesmo foi o Youtube, ficamos um bom tempo ouvindo as suas óperas preferidas, até que, encontramos a "1812". Com os olhos vibrantes contou que, Tchaikovsky descreveu na música o fracasso da invasão Francesa à Rússia, e que o maior inimigo das tropas não foram os canhões, mas sim o inverno, dezenas de soldados sucumbiram às nevascas. Divino era o que dizia ao ouvir e ver o maestro. “ Ah, as badaladas, os sinos! Era a mensagem para população que a guerra tinha chegado ao fim”.


Ao fim, Salim não deixou filhos, nem esposa. Solteiro convicto, sem nenhum tom de amargura, não entendia que amor era esse que as pessoas proclamavam, acreditava nunca ter amado uma mulher nos moldes sugeridos. Apostava na fraternidade, na existência una. Se o amor era desconhecido, a solidão era concreta. A solidão, pra ele, significava a distância de tudo que já havia sido. Saudades de um Salim que ficou em alhures. A metáfora do alfarrábio, dizia que assim como seus livros velhos, não interessava mais ao mundo.


O mundo não lhe abarcava. O seu conhecimento era para um outro tempo, saboreava uma esfirra como se fosse a última maravilha do mundo, descrevia tecidos como sensações, cheiros como lembranças e bebidas como portais para outros mundos . Andava devagar. A ciência era seu norte, seu sentido de vida.


A ciência. Lembro-me de um episódio, um homem perguntou se havia Madame Bovary, não encontramos, mas sim, Madame de Currie, comentei que um colega da faculdade estudava-a em antropologia da ciência. No mesmo momento, retirou o livro, embrulhou e disse, diga a ele que encaderne, não está em bom estado. Não era possível discordar do Salim. Assim o fiz, quando entreguei o livro para meu colega, não éramos próximos, ficou sem entender, mas animado comentou que só existia um outro exemplar disponível no Centro Cultural São Paulo. Esse era o Salim, fez parecer que estava dando um gibi, mas quando o questionei sobre a dificuldade para encontrar aquele livro, sorriu miúdo e emendou outro assunto.


Procurando assunto, há algumas semanas, resolvi passar na banca, estranhei os volumes expostos. Perguntei pelo Salim ao senhor que estava sentado. Soube então, que ele faleceu no dia 27/12 enquanto lia o jornal. O jornal era um dos seus prazeres diários, significava sentar com café ao lado e sem pressa, mesmo que tivesse que refazer o ritual várias vezes ao dia. Quando se interessava pela matéria, recortava-a e, ao mencioná-la, buscava o recorte na pasta destinada a eles.


Ele se foi, sem que eu tenha me despedido, na luta por fugir da sombra do capitalismo, acabei na Caverna. Correndo para sobreviver, esqueci de viver, foram tão poucas as vezes que o vi nos últimos meses. O velho barbudo tão presente em você, sempre pauta nossas conversas. Findamos no ponto de partida:


“ Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas como que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. (...)”


Na história que é nossas vidas, aprendi com você, meu amigo, que o grande desafio é negociar com a solidão. Não a solidão de um Outro, mas de nós mesmos, de tudo que fomos ou sonhamos ser. Uma solidão tão minúscula e cortante que passa despercebida aos olhos nus.


Nu, está agora, nu de corpo, vestido de alma. Parte teu corpo, ainda te procuro na praça, vejo os “loopings proletários”, escuto meu mp3. Vai teu corpo, fica tua alma, mesmo que não acredites, fica tua essência, o próprio alfarrábio. Fica você: suas histórias empoeiradas. Tesouro perdido.



Perdida estou, será que sobreviverei à nevasca? Mas, se um dia me perguntarem, por quem os sinos dobram em "1812", eu direi:


“Os sinos dobram por ti, dobram tragicamente, pois um homem tornou-se imortal”.


http://www.youtube.com/watch?v=ItpinnwrkgU










8 comentários:

Mill disse...

Que forma linda de homenagem, que gostoso e gratificante deve ser pra Salim ao lado de Karl Marx, Frank Zappa e outros Ateus ao ver uma homenagem dessa... Ele vai mudar de ídeia...

Lindissima figura esse Salim, que é admiravel só de ler, imagino o prazer de conhecer...

Sensacional Dona Claudiana Cabral, minha hermana

André Luís Omote disse...

Estou com saudade de alguém que nem conheci; Ou que na verdade acabei de ser apresentado.
Fui apresentado a alguém que não mais existe, ou melhor, alguém que existirá pra sempre, alguém que acaba de ser eternizado pelas mais lindas palavras, pelas mais lindas pitadas...
Quantas cores tem o seu cotidiano.

Anônimo disse...

Cortante. Belíssimo. Deu saudade, sabe-se lá do quê. Só restou uma pergunta: é sonhar muito esperar o curta?

Gabriel

José disse...

Estou com vontade de morrer só para ganhar uma homenagem linda como essa!! É de chorar, parabéns!!

MR disse...

Emocionante....

Vanessa disse...

Como fiquei tanto tempo longe deste blog?
Adorei o post. Lindo texto. Linda homenagem!

limao disse...

arrebatador. Lindo demais. Adorei o blog! E esse texto...é.
Parabens Clau e esperero que agente se trombe por aí!Pelo jeito tava perdendo uma pessoa muito bacana na minha vida.

ed disse...

Não sei como dizer isso sem comprometer minha masculinidade, mas você me arrancou uma lágrima. Lamento não ter conhecido o Salim. Acho que concordaríamos em muitas questões.

Beijos!

Torelli